sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A classe media portuguesa em risco de extinção

 

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Portugual A classe média portuguesa em risco de extinção

“Especiais troika”, pratos de preço baixo para acompanhar a queda da renda, em um estabelecimento de Lisboa. Foto: Katalin Muharay /IPS

A classe média portuguesa em risco de extinção
por Mario Queiroz, da IPS

Lisboa, Portugal, 23/1/2013 – A pobreza em Portugal aumentou até ganhar uma dimensão que poucos podiam prever há um ano, embora as drásticas medidas impostas pela troika de credores para o resgate financeiro do país permitissem prognosticar tempos de penúria. Milhares de famílias, desesperadas por não terem dinheiro para pagar sua alimentação e suas despesas fixas, tiveram que recorrer a instituições de caridade. Muitas vezes o fazem escondidas, diante do fenômeno cada vez mais comum da "pobreza envergonhada" .
As instituições de solidariedade social, como as privadas Caritas e Banco Alimentar, denunciam que o gosto amargo da pobreza inclui um alto índice de suicídios, produto do desemprego e do endividamento com os bancos. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas, um quinto dos portugueses viviam em 2012 com menos de US$ 478 por mês, em um país onde o salário mínimo legal é de US$ 644 mensais, com décimo-terceiro e décimo-quarto salários.
Em junho de 2012, um ano após a intervenção do país pela troika formada por União Europeia (UE), Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Central Europeu, reaparecia em Lisboa a "sopa dos pobres" , que na década de 1950 era distribuída pelas instituições católicas. Agora, voltaram as longas filas de pessoas diante de centros assistenciais à espera de receber a única refeição quente do dia. Em muitas escolas do país os professores relatam casos dramáticos, de tonturas e desmaios de meninos e meninas da classe média, por não terem comido nada pela manhã em suas casas e esconderem isso para evitar serem confundidos com os mais pobres.
Em todos os níveis da sociedade são registrados casos de uma classe média que não aceita o fato, que parece inevitável, de se afastar cada vez mais de uma classe média alta, da qual pretendeu se aproximar nas duas últimas décadas. Na verdade, segundo os especialistas, ocorre exatamente o contrário. Imersa em uma montanha de dívidas que não consegue pagar, a classe média está cada vez mais perto da baixa, que já constitui 24,4% dos 10,6 milhões de portugueses, mais de dois pontos percentuais acima do índice de 2009. O Instituto Nacional de Estatísticas situa na classe média aquelas pessoas cuja renda oscila entre US$ 768 e US$ 2.660, em um país onde metade da população não ganha mais do que US$ 932. Oficialmente, a essa classe pertencem 60% dos portugueses.
"Em Portugal a pobreza já está se transformando em paisagem" , disse à IPS o jovem João Pedro da Fonseca, um desempregado que após uma década de bonança regressou à casa dos pais e vive graças às suas miseráveis pensões, com poucas esperanças de encontrar trabalho e voltar ao seu ofício de técnico eletricista, especializado em geradores. Sem trabalho há 11 meses e sem auxílio desemprego, este lisboeta de 29 anos afirma que "este é apenas o começo de uma longa jornada de miséria, uma crise terrível pela qual não sou responsável, provocada pelos grandes senhores de sempre" .
Marina Oliveira, psicóloga de 26 anos sem trabalho há 13 meses, disse à IPS que, em uma crise, em qualquer parte do mundo, "a miséria só bate à porta dos mais necessitados" . Ela sobrevive graças à ajuda dos pais, até poder emigrar e tentar concretizar os sonhos que tinha, "o que lamentavelmente não será possível em meu país, porque toda esta pobreza aumentará ainda mais, com novas medidas para pagar o que a troika nos emprestou" , acrescentou.
O crédito concedido, destinado a cumprir com a dívida, enfrentar os pagamentos da administração e, mais criticado, ajudar bancos com problemas, é de US$ 110 bilhões. A jovem Marina destacou que em outros lugares também foi registrada "esta crise imposta pelos credores do ideal consumista, que nunca pagam a conta". "O caso mais obsceno é o dos Estados Unidos, onde os principais causadores da crise de 2008, que depois se espalhou por todo o mundo, foram convidados pelo presidente Barack Obama para serem assessores e conselheiros de seu governo" , ressaltou.
Segundo Marina, "em Portugal somos obrigados a viver sob as regras ditadas por esta troika de incalculável poder, que nos obriga a ficarmos de joelhos diante de um sistema financeiro internacional sem escrúpulos e sem o mínimo senso humanista, que nos obriga a entregar o país e esse punhado de abutres que são os grandes bancos" .
Pelos últimos dados estatísticos disponíveis, de 2011, naquele ano o produto interno bruto português era de US$ 214 bilhões e o poder de compra estava em 77,4% da média da UE. Dados provisórios indicam que em 2012 o PIB caiu 2,9%, confirmando a perda de seu valor desde o começo da crise. Entre 2009 e o encerramento de 2013, acumulará retrocesso de 7,4%, segundo estimativas do Banco de Portugal divulgadas no dia 15. A gota d'água que encheu o copo da indignação entre as vítimas da crise foi colocada no dia 10 pelo FMI.
Em um documento dirigido ao governo português, recomenda somar ainda mais austeridade à que já é aplicada à classe média, que em um ano e meio perdeu quase 25% de seu poder aquisitivo. O Fundo propõe uma nova onda de medidas, com mais cortes nas aposentadorias e nos salários, especialmente nos setores da educação, saúde e forças de segurança. O FMI também recomenda novos aumentos nos pagamentos em hospitais públicos, demissão de 14 mil professores, colocação em regime de transferência obrigatória de 50 mil professores e a passagem do ensino público para o setor privado.
Em sua coluna de toda terça-feira no jornal Público de Lisboa, o analista José Vítor Malheiros destacou ontem que essa política drástica de cortes acontece "somente nas áreas sociais e nunca nos benefícios pagos a 1% da cúpula" mais rica, e pretende "agradar os credores e eternizar a dependência de Portugal em relação ao sistema financeiro" .
No Centro de Emprego, em um bairro de Lisboa, um homem em torno dos 40 anos passa seus dias engrossando a longa fila de desempregados em busca de "qualquer trabalho que me oferecerem, porque estamos passando fome com minha filha de 12 anos". Ele concordou em conversar com a IPS mas sem se identificar, "porque gostaria de dizer algumas verdades e, se me identifico, certamente nunca conseguirei trabalho" , explicou.
Tampouco revelou sua profissão limitando-se a dizer que "teve a má ideia de se licenciar na universidade ao pensar que seria uma garantia para o futuro, mas aqui estou, disposto a aceitar qualquer coisa". Acrescentou que "o medo está se instalando em Portugal, e crescendo graças a políticas vergonhosas, e os que ainda têm trabalho agradecem aos patrões todos os dias, com medo de serem demitidos e começarem a fazer parte de nosso grupo, o dos novos pobres" .

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