Pepe Escobar
"A
razão dessa operação, com visíveis sinais de planejamento apressado, é
que o Brasil irá se tornar 'parte importante do G-7 do Oriente'", conta
Pepe Escobar
Uma fonte do mais alto nível do Deep State dos Estados Unidos, agora
exercendo um papel de consultoria em Nova York, confirmou que a
remixagem caótica da Maidan montada em Brasília neste último domingo foi
uma operação da CIA, e ligada às recentes tentativas de revolução
colorida no Irã.
Supostos apoiadores do ex-presidente de extrema-direita Jair
Bolsonaro invadiram o Congresso, a Suprema Corte e o palácio
presidencial, conseguindo passar por – frágeis – barreiras de segurança,
subindo em telhados, quebrando vidraças, destruindo propriedade
pública, inclusive obras de arte de alto valor, e pedindo um golpe
militar como parte de um esquema de mudança de regime dirigido contra o
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo essa fonte, a razão dessa operação agora, com visíveis sinais
de planejamento apressado, é que o Brasil irá se tornar "parte
importante do G-7 do Oriente".
O que sugere que os planejadores da CIA eram leitores ávidos do
experiente estrategista do Credit Suisse, anteriormente do FED de Nova
York. Em um dos dois inovadores relatórios de fins de 2022, intitulado
War and Commodity Encumbrance (Guerra e Oneração de Commodities),
publicado em 27 de dezembro, Pozsar afirma que "a ordem do mundo
multipolar vem sendo construída não pelos chefes de estado do G-7, mas
pelo "G-7 do Oriente", (os chefes de estado dos BRICS), que na verdade é
um G-5, mas que eu, em razão da BRICSpansão, tomei a liberdade de
arredondar".
A fonte traçou um paralelo entre a Maidan da CIA no Brasil e uma
série de manifestações de rua ocorridas no Irã e instrumentalizadas pela
agência como parte de um movimento de nova revolução colorida: "Essas
operações da CIA no Brasil e no Irã pautam-se na operação na Venezuela,
em 2002, que foi altamente bem-sucedida ao início, quando os amotinados
conseguiram capturar Hugo Chávez".
Entra em cena o "G-7 do Oriente"
Os neocons-straussianos do primeiro escalão da CIA, independentemente
de sua filiação política, estão furiosos com o "G-7 do Oriente" –
significando a configuração do BRICS+ em um futuro próximo – que vem se
afastando rapidamente da órbita do dólar. Nos próximos dois anos, o
BRICS+ talvez venha a incluir Argélia, Argentina, Irã, Indonésia, Arábia
Saudita, Turquia e UEA, entre outros atores importantes do Sul Global.
O tóxico straussiano John Bolton – que acabou de tornar público seu
sonho molhado de concorrer à presidência da república – agora exige a
expulsão da Turquia da OTAN, quando o Sul Global se realinha com a
rapidez de um raio. O Chanceler russo Sergey Lavrov e seu colega chinês
Qin Gang anunciaram há pouco a fusão da Iniciativa Cinturão e Rota (ICR)
conduzida pela China e da União Econômica Eurasiana (UEEA) conduzida
pela Rússia. O que significa que o maior projeto de
comércio/conectividade/desenvolvimento do século XXI – as Novas Rotas da
Seda chinesas – é agora ainda mais complexo e continua em expansão.
Essa medida prepara o terreno para a adoção, já sendo projetada em
vários níveis, de uma nova moeda internacional de comércio visando a
suplantar e, em seguida, substituir o dólar americano. Além de um debate
interno entre os BRICS, um dos principais vetores é a equipe de
discussões montada pela UEEA e a China. Após concluídas, essas
deliberações serão apresentadas aos países parceiros da ICR-UEEA e, é
claro, também do BRICS+ expandido.
Lula no comando do governo brasileiro para o que será seu terceiro
mandato presidencial representará um tremendo estímulo aos BRICS+ - como
ocorreu na década de 2000, quando, lado a lado a Putin e Hu Jintao, ele
foi um dos principais formuladores de um maior papel para os BRICS,
incluindo a possibilidade de comércio em suas próprias moedas.
Os BRICS, o novo "G-7 do Oriente", tal como definido por Pozsar, é
mais do que anátema, tanto para os neocons-straussianos quanto para os
conservadores neoliberais. Os Estados Unidos vêm, lenta mas firmemente,
sendo expelidos da Eurásia por ações conjuntas da parceria estratégica
Rússia-China.
A Ucrânia é um buraco negro – onde a OTAN enfrenta uma humilhação que
fará o Afeganistão parecer Alice no País das Maravilhas. Uma União
Europeia fraca, sendo forçada pelos americanos a se desindustrializar e
comprar GNL a custos absurdos, não possui recursos essenciais para serem
pilhados pelo Império.
Em termos geoeconômicos, sobra o que os Estados Unidos chamam de
"Hemisfério Ocidental", em especial a Venezuela imensamente rica em
petróleo. E, em termos geopolíticos, o principal ator regional é o
Brasil. O roteiro neocon-straussiano é usar de todos os trunfos para
evitar a expansão do comércio e da influência política da China e da
Rússia na América Latina, "nosso quintal". Em tempos em que o
neoliberalismo é tão "inclusivo" que os sionistas usam suásticas, a
doutrina Monroe turbinada está de volta.
Trata-se da "estratégia da tensão"
Pistas levando à Maidan brasileira podem ser obtidas, por exemplo, no
Comando Cibernético do Exército dos Estados Unidos, em Fort Gordon,
onde não é segredo que a CIA enviou centenas de agentes para todo o
Brasil antes das últimas eleições presidenciais – fiéis ao manual de
instruções da "estratégia de tensão".
As conversas da CIA vêm sendo interceptadas por Fort Gordon desde
meados de 2022. O tema principal, então, foi a imposição de uma
narrativa hegemônica, segundo a qual Lula só poderia ganhar
trapaceando.
Um objetivo importante da operação da CIA foi desacreditar por todos
os meios o processo eleitoral brasileiro, abrindo caminho para uma
narrativa pronta que agora vem se desenrolando: um Bolsonaro derrotado
fugindo do Brasil e buscando refúgio no Mar-a-Lago de Trump. Bolsonaro,
aconselhado por Steve Bannon, de fato fugiu do Brasil faltando à posse
de Lula, mas como ele está apavorado, ele pode ter que enfrentar a
cadeia mais cedo do que se pensa. E ele está em Orlando, não em
Mar-a-Lago.
A cereja do bolo seco de Maidan foi o que aconteceu no último
domingo: a criação de um 8 de janeiro em Brasília, imitando o 6 de
janeiro de 2021 de Washington e, é claro, plantando na cabeça das
pessoas o elo Bolsonaro-Trump.
A natureza amadora do 8 de janeiro de Brasília sugere que os
planejadores da CIA se perderam em sua própria trama. A farsa inteira
teve que ser antecipada devido ao relatório de Pozsar, lido por todos os
que têm alguma importância no eixo Nova York-Beltway.
O que fica claro é que, para algumas facções do Deep State, livrar-se
de Trump, custe o que custar, é ainda mais importante do que
enfraquecer o papel do Brasil nos BRICS+. E para tornar o nevoeiro ainda
mais denso, a União Europeia politicamente correta, por meio do
insignificante Charles Michel, e também o Departamento de Estado dos
Estados Unidos, por meio do conservador neoliberal, o Pequeno Tony
Blinken, pareciam estar torcendo por uma repetição do "ataque ao
Capitólio dos Estados Unidos".
No que se refere aos fatores internos da Maidan brasileira, tomando
emprestado de Garcia Márquez, absolutamente tudo soa como uma Crônica de
um Golpe Anunciado. É impossível que o aparato de segurança que cerca
Lula não tenha previsto que isso aconteceria – tendo em vista,
principalmente, o tsunami de sinais anteriormente veiculados nas redes
sociais.
Deve, portanto, ter havido um esforço articulado de agir de forma
branda – sem qualquer tipo de "big sticks" preventivos – ao mesmo tempo
em que se recitava o blá-blá-blá neoliberal de sempre. Afinal, o
gabinete de Lula é uma bagunça, onde ministros se entrechocam, alguns
deles apoiadores de Bolsonaro há apenas poucos meses.
Lula chama de "governo de união nacional" o que mais parece uma colcha de retalhos mal-alinhavada.
O analista brasileiro Quantum Bird, um acadêmico da Física
mundialmente respeitado e agora de volta à pátria após uma longa
temporada nas terras da OTAN, observa que "há atores demais em ação, e
um excesso de interesses antagônicos. Entre os ministros de Lula há
bolsonaristas, rentistas neoliberais, convertidos ao intervencionismo
climático, praticantes das políticas identitárias e uma vasta fauna de
políticos neófitos e de alpinistas sociais, todos bem alinhados com os
interesses imperiais de Washington".
"Militantes" atiçados pela CIA rondando à solta
Um cenário plausível é que setores poderosos das Forças Armadas
brasileiras – a serviços dos suspeitos de sempre, os think-tanks neocon-
straussianos aliados ao capital financeiro global – não conseguiram dar
um golpe de verdade em razão da maciça rejeição popular, e tiveram que
se contentar com, na melhor das hipóteses, uma farsa "branda". O que
evidenciaria que essa facção militar, altamente corrupta e ufanista,
está, na verdade, isolada da sociedade brasileira.
O que é extremamente preocupante, como observa Quantum Bird, é que a
unanimidade na condenação do 8 de janeiro, vinda de todos os quadrantes,
ao mesmo tempo em que ninguém se responsabilizava pelo ocorrido,
"mostra que Lula navega praticamente sozinho em um mar raso e infestado
de corais afiados e de tubarões famintos". E a posição de Lula,
acrescenta ele, "decretando sozinho uma intervenção federal, sem figuras
fortes de seu próprio governo nem autoridades relevantes, mostra uma
reação improvisada, desorganizada e amadora". E tudo isso depois de os
militantes – ou os "militantes" atiçados pela CIA – estarem há dias nas
mídias sociais organizando abertamente os "protestos".
O mesmo manual de instruções da CIA continua sendo aplicado. E
continuamos a nos estarrecer ao ver como é fácil subverter o Brasil – um
dos líderes naturais do Sul Global. Tentativas velha escola de golpes e
de scripts de mudanças de regime/revoluções coloridas continuarão a
acontecer – lembrem-se do Cazaquistão, em inícios de 2021 e do Irã, há
apenas poucas semanas.
Por mais que a facção ufanista dos militares brasileiros acredite que
controla o país, se as massas lulistas tomarem as ruas com força total
para mostrar seu total repúdio à farsa de 8 de janeiro, sua impotência
ficará evidente. E como se trata de uma operação da CIA, os
manipuladores ordenarão seus vassalos militares a se comportarem como
avestruzes.
O futuro, infelizmente, é sombrio. Os suspeitos de sempre não
permitirão que o membro dos BRICS com o maior potencial econômico depois
da China volte a assumir seu papel com força total – e, além de tudo,
em sincronia com a parceria estratégica Rússia-China. Os neocons
straussianos e os conservadores neoliberais, chacais e hienas
geopolíticos de papel passado, se enfurecerão ainda mais, à medida que o
"G-7 do Oriente", o Brasil inclusive, continuar a agir para pôr fim à
suserania do dólar americano enquanto o controle imperial do mundo se
desfaz.
Tradução de Patricia Zimbres
Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.
Fonte: https://www.brasil247.com/blog/como-a-cia-montou-uma-maidan-no-brasil